Gambiarra a essência da cultura maker no Brasil

Em 2013 Mark Hatch CEO da Techshop escreveu o The Maker Movement Manifesto: Rules for Innovation in the New World of Crafters, Hackers, and Tinkerers. No livro Hatch elenca alguns princípios que devem estar por trás de todo produto, projeto ou ideia desenvolvida por criadores e gente que deseja inovar pelo mundo.

Tomamos a liberdade de trazer por aqui uma releitura dos seus princípios referenciando com trabalhos que admiramos e que estão para além do eixo nortista. Queremos compartilhar  com vocês trabalhos com impacto social e que misturam baixa e alta tecnologia.

  1. Fazer Todo ser humano precisa dos verbos fazer e criar como ato de expressão para se sentir completo.

Regina tchelly paraibana radicada no Morro da Babilônia, na Zona Sul do Rio, criou o Favela Orgânica com a ideia de transformar o desperdício em pratos deliciosos. Regina conta que na época que veio trabalhar no Rio de Janeiro como empregada doméstica via muito desperdício nas casas e nas feiras. Segundo ela a cultura na paraíba era aproveitar o máximo do alimento. Em casa ela já improvisava receitas como arroz colorido de talos e cascas, pão de mel de casca de banana, quiche de talo de brócolis, entre outras receitas. E o que era intuição virou método e negócio. Hoje ela tem um projeto que engloba oficinas de gastronomia alternativa, compostagem caseira e hortas em pequenos espaços.

2. Compartilhar Não dá pra gente fazer e não compartilhar. O gesto de compartilhar é o que completa o significado da criação.

No Vale do Jequitinhonha, localizado no norte de Minas Gerais existem muitos movimentos de populações tradicionais como geraiseiros e quilombolas que possuem formas de subsistência autogestionadas. As cisternas de água tem sido tanto uma alternativa sustentável já que captam as águas da chuva e depois distribuem pela comunidade como uma solução para enfrentar a falta de água no cerrado e sertão mineiro.

3. Dar a sua criação é dar um pouco de si mesmo.A cultura do código aberto é fundamental para quem deseja produzir impacto social.

O Indiano Arunachalam Muruganantham inventou uma máquina de fabricação caseira de absorventes. Sua ideia além de diminuir os custos finais da venda de absorventes também levantou o debate sobre o tabu em torno da menstruação. Muitas mulheres em zona rurais na Índia usavam panos no lugar dos absorventes. O problema é que por causa da vergonha (até de seus próprios maridos) esses panos eram escondidos e não tinham a higienização necessária. O tabu misturado com práticas não higiênicas era responsável pela maioria dos casos de esterilidade feminina nas zonas rurais. Muruga além de resolver esse problema, ensinou outras mulheres por mais de 29 estados da Índia produzirem seus próprios absorventes e gerarem rendas para as suas famílias.

4. Aprender a fazer e aprender cada vez mais como se deve fazer. Aprender é constante.

O nigeriano Adebayo Adegbembo é professor, programador e criador do aplicativo Àsá que ensina crianças a língua yorùbá. Adegbembo percebeu em 2012 com o nascimento da sua sobrinha que a maioria das crianças não conseguiam entender palavras em yorùbá ou em qualquer outra língua africana. Como professor que entendia a importância da memória e história para o fortalecimento de um povo e sua cultura, ele resolveu alinhar a tecnologia a educação. O aplicativo que tem sua versão em android tem se tornado bastante popular em Lagos na Nigéria e ensinando tanto crianças como adultos a língua yorubá, sua cultura e brincadeiras antigas.

5. Ter as ferramentas certas você precisa descobrir quais as ferramentas que você precisa para o seu trabalho. Com a globalização e a internet quase todas as ferramentas hoje estão acessíveis.

Cyrus kabiru é um pintor, escultor e artista plástico queniano. Enquanto suas pinturas são resultado de sua experimentação pela cidade e seu papel de flâneur. Sua obra escultural incorpora seu papel de “colecionador” de peças descartadas em Nairóbi. Ele cria máscaras e óculos de lixo eletrônico, reciclados e materiais encontrados em várias formas. Sempre a partir de uma releitura de um cotidiano pop e da estética afrofuturista. Seus trabalhos se situam entre a moda, a arte vestível, a performance e um dos objetos de commodities.

6. Brincar e experimentar no ato da criação a gente não pode perder o tesão, a capacidade de se emocionar pelo o que foi criado e experimentar novas coisas.

Os carrinhos de café que tem seu surgimento por volta nos anos 70 em Salvador, foram criados para facilitar a vida de quem andava horas pelo centro da cidade carregando garrafas térmicas. Anos depois essa invenção popular continua, mas dessa vez remixada com as novas tecnologias. Quando Moisés Pereira resolveu trabalhar vendendo café pelo centro de Salvador descobriu que o custo médio de um carrinho feito geralmente de madeira ou alumínio ficava em torno de R$450. Ele não tinha o valor, mas tinha intuição, método e criatividade. Moisés revolveu fazer o seu próprio carrinho de café e desde então tem sido referência. Seu carrinho construído grande parte com materiais recicláveis tem motor, volante e equipagem de som completo. Além de vender café ele é convidado para tocar em aniversários, bares e festas.

7. Participar é preciso criar rede e mecanismos para que as pessoas estejam cada vez mais conectadas ao movimento maker.

O ganense Tonjé Bakang é empresário e fundador do Afrostream, uma rede de conteúdo audiovisual, musical e informação produzida por pessoas negras ou que tenha negros como protagonistas. O Afrostream surgiu a partir da crença que filmes e séries africanos, afro-caribenhos e afro-americanos merecem uma disseminação mais ampla, já que conteúdo produzido ou protagonizado por negros não costumam ter a mesma visibilidade e representatividade nas grandes industrias .

A solução criada foi um serviço de streaming por assinatura legal que oferece mais de 2000 horas de conteúdo disponível em computadores, telefones, tablets disponíveis na França , Suíça, Benim, Burquina Faso, Burundi, Cabo Verde, Camarões, República Centro-Africana, Chade, Comores, República Democrática do Congo, República do Congo, Costa do Marfim, Djibouti, Guiné Equatorial, Gabão, Guiné, Guiné-Bissau, Madagascar, Mali, Mauritânia, Maurícia, Níger, Senegal, Seicheles e Togo.

Em 2017 Tonjé Bakang, escreveu uma carta aberta sobre o futuro de sua empresa. Falando que Afrostream teria seus serviços encerrados por falta de patrocínio.

“(…) Começar uma startup é como criar um perfil Tinder. À primeira vista, é atraente. Quando você olha mais de perto, parece complicado. Na terceira olhada, parece intransponível. Mas como em todos os encontros românticos, começar uma startup começa com paixão, mas acaba às vezes com uma lágrima. Como em qualquer relacionamento, o medo de sofrer no final não deve obscurecer toda a felicidade que precede. É exatamente o mesmo com o empreendedorismo. Depois de uma falha, você tem que começar de novo. Se eu tivesse que fazer isso de novo, eu faria”.

Independente do futuro do empresário Bakang eu continua sendo fã da sua coragem em enfrentar o problema da falta de representatividade de pessoas negras na industria do entretenimento e meter medo em grandes plataformas como o Netflix.

8. Apoiar é importante que você contribua financeiramente ou intelectualmente para que essa cultura seja expandida pelo mundo afora.

Sil Bahia é jornalista, mestra, tecnóloga e criadora do PretaLab, uma plataforma que visibiliza histórias de mulheres negras na tecnologia por todo o Brasil. A plataforma traz entrevistas, vídeos e dados que apontam que falar de raça e gênero na tecnologia é necessário para a criação de uma sociedade socialmente mais justa. Mas do que um espaço digital é um convite à discussão e um chamado à ação, para que a desigualdade social não se aprofunde ainda mais.

9. Mudar abrace a mudança, mude, mude e não tenha medo de transforma todos os dias o seu trabalho e o pequeno mundo ao seu redor.

Bispo Rosário (minha maior referência em criatividade!) considerado esquizofrênico pela medicina tradicional, mas sem dúvida um gênio e grande artista para a maioria. Nasceu em Japaratuba, no interior do estado de Sergipe em 1909. Trabalhou na Marinha, foi boxeador, trabalhou no Departamento de Tração de Bondes, na cidade do Rio de Janeiro e por fim, como empregado doméstico da família Leone.

Na noite 22 de dezembro de 1938, ele despertou com alucinações e disse para o seu padrão da época que iria se apresentar à Igreja da Candelária. Depois de peregrinar pela rua Primeiro de Março e por várias igrejas terminou subindo ao Mosteiro de São Bento, onde anunciou a um grupo de monges que era um enviado de Deus, encarregado de julgar os vivos e os mortos. Dois dias depois foi detido e fichado pela polícia como negro, sem documentos e indigente, e conduzido ao Hospício Pedro II (o hospício da Praia Vermelha). Um mês depois foi transferido para a Colônia Juliano Moreira, localizada no subúrbio de Jacarepaguá, sob o diagnóstico de “esquizofrênico-paranoico”. Onde permaneceu por mais de 50 anos e produziu mais de 800 obras catalogadas.

O bispo teve sua obra reconhecida nos anos 80 e desenvolveu objetos com itens oriundos do lixo e da sucata usando a metodologia da remixagem. Os objetos recolhidos eram reutilizados como forma de registrar o cotidiano dos indivíduos. Ele manipulava signos, brincava com a construção de discursos, criava códigos privados e tinha a palavra com elemento pulsante em sua obra. Para os críticos de arte seu trabalho fazia referência a estética vanguardista elaborada a partir dos anos 60.

Por último a gente acrescentaria no manifesto maker de Mark Hatch a gambiarra como ferramenta e estética. E a importância de considerar o low tech (baixa tecnologia) quando pensamos o movimento maker. Assim como para o movimento maker tradicional a impressora 3D é uma das principais ferramentas de criação, pra gente (do lado de cá) a gambiarra é a essência da cultura maker no Brasil. Todas as criações populares, em favelas e periferias do Brasil, inventadas para resolver problemas cotidianos, a escassez ou a presença seletiva do estado tem mostrado a potência criativa nesses territórios.

O mototaxi resolvendo o problema de mobilidade, os “gatos” resolvendo a falta de abastecimento continuo de água e luz, o puxadinho solucionando a moradia, o modo de vida diverso e em comunidade nos ensina que é preciso descolonizar o olhar sobre o que é inovação no Brasil.

A gambiarra como estética, a sevirologia como modo de vida, a mecnologia como a ciência da tranquilidade favelada e a criatividade popular vai nos apontar o futuro

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